A Chuva

Ela traz paz
Traz vida
E reflexões

Refrescante ou
Daquela que gela
O molhar é igual

Não sou poetisa
E nem tinha
Lá o que escrever

Assim como ela
Que não carece
De razão de ser

Nem sei o que
É verso ou estrofe
Ou tento ser esnobe

Igual ela que
Simplesmente é
Ou precisa de mais

23/12/16

“O escuro me ilumina”

manoel1Manoel de Barros (1917-2014)

“O escuro me ilumina”

 

Poesia não é pra compreender
É para incorporar
Entender é parede
Procure ser árvore

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho.
Por motivo do ermo não fui um menino peralta.
Agora tenho saudade do que não fui.
Acho que o que faço agora
é o que não pude fazer na infância.
Faço outro tipo de peraltagem.

Quando eu era criança
eu deveria pular
muro do vizinho para catar goiaba.
Mas não havia vizinho.
Em vez de peraltagem eu fazia solidão.
Brincava de fingir que pedra era lagarto.
Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho
mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas.
De uma infância livre e sem comparamentos.
Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança,
a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha,
de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore.

Então eu trago das minhas raízes crianceiras
a visão comungante e oblíqua das coisas.
Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.

É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor.
Eu tenho que essa visão oblíqua
vem de eu ter sido criança
em algum lugar perdido
onde havia transfusão da natureza
e comunhão com ela.

Era o menino e os bichinhos.
Era o menino e o sol.
O menino e o rio.
Era o menino e as árvores.

****

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Sonho de uma noite de natal

Semana passa assisti um belíssimo recital na Biblioteca Nair Lacerda. Apesar de não ter conseguido o empréstimo da coletânea encontrei na web este conto tocante cuja leitura foi realizada colega Miguelito durante o lançamento do livro “Canto a uma negra (e outros poemas)” da amiga Iracema M. Régis.

Por Máximo Gorki

Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.

Era noite. Lá fora pronunciava-se uma tormenta. A neve caia em flocos espessos. A rua estava deserta ,e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.

Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava nos segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumos. Em vão. O tique taque apressado, incansável, voltava a dominar o murmúrios do inverno; e aquele tique taque seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se ao meu cérebro, ressoava dentro dele.

Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele, cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.

Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelo casario da vizinhança, para ver se obtinham algo com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia mais santo de todos.

Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da missa do galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e já era muito tarde quando o triste casal compreender que tinha de voltar ao seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome.

Retomaram, pois, o caminho de seu abrigo, ela adiante, ele com a mão apoiada à sua cintura. Vinham lentamente, na escuridão da noite. As nuvens encapotavam o céu; o vento dançava com a neve, e o caminho parecia cada vez mais longo. É que a velha se deixava iludir pela alvura sempre igual do solo e, em vez de tomar o atalho que continha, seguira ao longo do vale.

O velho irritava-se.

– Ainda não chegamos? Estou vendo que não chegaremos antes da meia-noite.

Ela respondia que estavam perto. Sabia que tinham se perdido e queria ocultar-lhe o fato. Mas tanto andou em vão que teve de confessar com um tom melancólico na voz:

– Em nome de Cristo, perdoe-me. Eu me enganei, tomei outro caminho… E o pior é que agora não sei onde estamos. Vamos parar um pouco para repousar.

– Mas vamos ficar gelados…

– Que importa!… Nossa vida não é tão doce que dê pena de perdê-la. Preciso descansar um pouco.

O velho cedeu, suspirando.

Sentaram-se na neve, encostados um contra o outro, e ficaram imóveis, como duas trouxas de farrapos. A neve, que caia incansável, começou a cobri-los, e a mulher, menos agasalhada que o marido, não tardou a se sentir tomada por um sono irresistível.

Sentindo que ela se apoiava mais fortemente sobre seus ombros, o homem assustou-se:

– Minha velha, não durma: olhe que vai ficar gelada.

Porém, ela já adormecera, e balbuciava coisas incompreensíveis, sem despertar.

O velho voltou-se e tentou erguê-la, repetindo seus alarmados conselhos. Como não o conseguisse, ergueu os braços e bradou por socorro. Ninguém o ouviu, mas os sinos, ao longe começaram a repicar.

– Minha velha – insistiu o cego, sacudindo os ombros de sua pobre companheira -, os sinos já estão tocando para a missa. Levante-se… Olha que vamos chegar tarde…

Mas a mulher mantinha-se imóvel.

Então, resignado, sentindo-se também invadido pela sonolência mortal, o cego sentou-se de novo ao lado de “sua velha”, e uma última suplica passou por seus lábios:

– Senhor! Acolhe a alma de teus servos. Ambos somos pecadores, mas confiamos em tua misericórdia.

Recordando essa historia, sorri, contente comigo mesmo, certo de que ela enterneceria meus leitores.

E, embalado pelo tique taque do relógio, comecei a cochilar.

E então, sem saber ao certo se estava dormindo ou acordado, vi a claridade vaga da janela aumentar, tomar um tom azul e fosforescente, ampliar-se, formando um quadro imenso, e aí surgirem pouco a pouco, alguns vultos, a princípio confusos, inconsistentes. Mas logo seus contornos se foram acentuando e desenhando formas familiares a meus olhos.

Eram crianças, mulheres, velhos – todos miseráveis e tristes.

– De onde vêm essas sombras e que representam? – perguntei a mim mesmo, tentando em vão emergir dos abismos do sono.

Uma voz perguntou por sua vez:

– Não nos reconheces?

Procurei distinguir no meio daquela multidão lamentável. Vi então um grupo que, com passo vacilante, tomava a dianteira de todas as sombras. Era um velho cego, apoiado à cintura de uma mulher também já idosa, que me fitava com ar de censura.

– Não me reconheces? – repetiu com voz severa. – Nós somos os heróis dos contos, que passas a vida escrevendo; somos os tristes e desgraçados filhos da tua imaginação… Ali estão os dois meninos que fizeste morrer de frio, diante das janelas de uma casa onde fulgia, magnifica e opulenta, uma árvore de Natal. Aquela mulher, ali, é a desgraçada que fizeste morrer sob as rodas de um trem, quando corria, ansiosa por levar aos filhos um presente de Natal. Aquele ancião…

Eu ouvia, contemplando pálido de horror, as sombras lúgubres e silenciosas que desfilavam sem cessar ante meus olhos.

Por que vinham todas elas me alucinar nessa noite? Que queriam de mim? Que pretendiam?

– Responde tu mesmo essas perguntas – bradou a velha, lendo em meu pensamento. – Por que escreveste essas coisas? Para que vives inventando essas desgraças, dessas tristezas? Que pretendes com isso? Desfazer o que resta de fé e esperança no coração dos homens? Tirar-lhes a confiança na redenção, mostrando-lhes somente o mal? Aniquilar o desejo de viver, apresentando a existência como um suplício sem fim e sem remédio?

Eu estava consternado… Seria mesmo assim tão culpado? O que faço não é o que fazem todos os escritores? Especialmente nos contos de Natal, procuramos todos imaginar cenas bem tristes, bem tocantes, para despertar em nossos leitores sentimentos compassivos, abrir nos corações à piedade…

– É mentira! – bradou a velha. – Mentira ingênua e ridícula. Então pretendes, como dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensas enternecer com tuas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?…

O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor; mas, naquela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.

Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas.

Do livro Máximo Gorki / Fedor Dostoiewski. Histórias de Natal. São Paulo, Boitempo, 1995.

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM: Portal Vermelho

Carta de Graciliano Ramos para a irmã Marili: duro e valioso conselho a quem escrever.

Um tapa de fato, mas com bom propósito.
Ainda na vida digo – e não na arte – digo que toda vez que tento fazer algo que parece certo para “o ser” meu “eu” é quem termina decepcionado, falido e com o dedo em riste me aponta: eu te disse!

“… essas mijadas curtas não adiantam. Revele-se toda. A sua personagem deve ser você mesma. (Graciliano Ramos)”

Fluxo Revista

Rio, 23 de novembro de 1949.

Marili: mando-lhe alguns números do jornal que publicou o seu conto. Retardei a publicação: andei muito ocupado estive alguns dias de cama, a cabeça rebentada, sem poder ler. Quando me levantei, pedi a Ricardo que datilografasse a Mariana e dei-a ao Álvaro Lins. Não quis metê-la numa revista: essas revistinhas vagabundas inutilizam um principiante. Mariana saiu num suplemento que a recomenda. Veja a companhia. Há uns cretinos, mas há sujeitos importantes. Adiante. Aqui em casa gostaram muito do conto, foram excessivos. Não vou tão longe. Achei-o apresentável, mas, em vez de elogiá-lo, acho melhor exibir os defeitos dele. Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas da nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que…

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Todas as vezes, e uma mais.

http://grooveshark.com/s/HALLELUJAH/6RoDgz?src=5

Qual é o número que você usa para medir o amor?

Existe um que possa quantificar e limitar uma porção definitiva de conversas?

E de se perdoar? Recomeçar? Respirar fundo e ignorar?

Existe uma métrica pra isso?

Parece que não.

Ainda que você busque racionalizar, não vai conseguir. É um sem fórmula, fração ou equação.

Acima ou abaixo daquilo que pode chamar de fé, você continua mesmo quando uma parte sua grita e te arrasta na direção contrária.

O que dizer sobre isso? Aleluia!

Well, there was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never show that to me, do you?

Fusca no Planalto

Fernando Cunha

Enquanto o brilhante azulado segue pelo horizonte

Tudo e mais um pouco gira nessa infinita highway

E segue como uma história, mas não uma qualquer.

A cabeça não está nas nuvens e o pé pisa certo no chão

Mesmo com a chuva que lambe o horizonte lá está o sol

Não importam mais os olhos úmidos por que o lado é certo

No horizonte uma porção de sonhos, muito trabalho e

O trato é ir de cento e dez até cento e sessenta

E o motor aguenta, claro que aguenta!

Numa dessas curvas, não da highway mas da vida

Ficaram os dados, o riso, os jogos e momentos únicos

Únicos como você Cleber Barbosa e nada mais podia ser igual.

Felizes Riscos e Horizontes na sua nada deserta estrada!

(*) Já que o parabéns não pode ser ao vivo, ao menos a Highway seja acústica né? ❤
Com amor da sua distante amiga ❤